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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Envelhecimento X Amadurecimento

Em um gráfico, esses dois vetores deveriam ser proporcionais, se se pensasse que o envelhecer  traz junto o amadurecer; pode acontecer com as árvores frutíferas, seres vivos , mas com o ser humano, pode  ser inversamente proporcional.
O envelhecer era visível aos olhos até pouco tempo, hoje confunde-se ou assusta-se com o resultado desse acontecimento tão natural.
O amadurecimento não é tão visível, é necessário convivência e compartihamento para perceber e sentir. E nos traz grandes surpresas. Um ancião pode ter um grau de amdurecimento 3 (numa escala de 0 a 10), e um jovem ter 8, por exemplo. Vice-verso existe sim, seria o óbvio e  o comum, mas não é o que sinto e vejo ao meu redor.
Tanto em grupos familiares, de amigos ou consultório, o que mais encontro é um não amadurecimento, um não crescimento, que me fez pensar, será que amadureci suficientemente? O que prevaleceu até hoje aqui nessa mulher?
Um vídeo da Jane Fonda falando sobre o terceiro ato da vida, causou um certo conforto em mim.
Ontem foi meu aniversário, ganhei o meu neto em tempo integral por uma semana, por conta de férias da minha filha e genro, o que senti como o melhor presente que poderia receber, além da vinda de  outro neto que chegará em Julho!
Ah, meu Deus, quanta felicidade sentida  nestes dias! Isso seria sinal de amadurecimento? Não ficar com medo da felicidade, e sim sentí-la plenamente, e ao mesmo tempo, esse pensamento dúbio e paradoxal.
Outro ponto interessante é o conhecimento X sabedoria, mas esse vou deixar para queimar os "miolos" em outro tempo.
Hoje, um dia pós- aniversário, estou nas nuvens!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Murar o medo...

:Murar o medo, por Mia Couto
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:
“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Minha alma canta..."

Converso e leio que muitas pessoas tem momentos de inspiração em horários inusitados, e que logo depois, quando não foi possível anotar nenhuma palavra, tudo aquilo que foi pensado e repensado, desaparece completamente, e não é lembrado nem por reza brava. Ibisen ibidem. Não sei bem se está correto, mas enfim, comigo acontece igualzinnho.
Quando estou na minha caminhada na represa, às vezes assistindo um filme, outras ouvindo uma música, outras tomando banho, conversando, num restaurante...vem um lampejo de algo tão gostoso, ou triste, e daí não tenho onde anotar nada, e penso: assim que pegar uma caneta, ou chegar até o computador, dou uma pincelada. Que nada! Aquilo toma um chá de sumiço, que nem se onde vai parar...e quando estou com tempo  não sai nadica.
Bem, mas "vamo que vamo", talvez ficar com uma caneta e um papel em sentinela, seja uma solução, ou um gravador! Eureka!
Mas aí, bem, aí chega o meu querido Tom Jobim, que eu amo de paixão, que  disse  que ainda bem que ele tinha uma caneta quando estava sobrevoando o Rio de Janeiro, chegando de uma viagem,  e teve aquela inspiraçãozinha de leve , enquanto apreciava aquela paisagem maravilhosa e aconteceu só isso:
    Minha alma canta,
   Vejo o Rio de Janeiro,
   Estou morrendo de saudades
   Rio você...Foi feito prá mim...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra & Madame Bovary

Comprei uma coleção de filmes e o primeiro que escolhí foi M. Bovary. Gostei; só gostei.
Filme de fotografia incrível, fiquei boquaberta com algumas cenas, semelhantes a paisagens de Monet. Mas esperava mais, tal a fama que ele tem. Legal que cada filme é acompnhado por um livro ótimo; li tudo, sobre a filmagem, direção, etc. Havia lido o livro de Flaubert há muito tempo, e esse filme é a setima adaptação (Chabrol) das oito que houveram dessa obra.
Gustave Flaubert(1821-1880) influenciou tantos aspectos morais na literatura, teatro, cinema e TV, que a palavra "bovarismo" passou a designar "a tendência que certos indivíduos apresentam de fugir da realidade e imaginar para si uma personalidade e condições de vida que náo possuem", que até entrou para o dicionário.

"Leve lenço ao cinema" foi a única coisa que lí sobre "Cavalo de Guerra"; ah!, e que Spielberg o dirigia. Normalmente não gosto de saber opinião de ninguém antes de assistir um filme, principlamente críticas dos "entendidos".
ADOREI. Comecei a chorar antes dos dez primeiros minutos do filme, e parei só no banheiro, onde fui me refazer quando as luzes se ascenderam. Mas foi um choro gostoso (será que existe isso?), de emoção com cenas que vão permanecer na memória e que sintonizaram com minha vida em muitos momentos. Filmão!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Pausa da Sonica...

There’s no place like home

A Primeira casa? Um aluguel que quase não cabia dentro do bolso e as paredes amarelas. Quarto-sala-cozinha. São Paulo fascinante. O cantinho ficava numa esquina com a Rua Augusta e tive ali os vizinhos mais paulistanos que já conheci. A casa decorei na cor laranja (sei-lá-porque-motivo)… Minha estante acompanhada de Simone de Beauvoir, Foucault, Balzac, Rosa Luxemburg, Roland Barthes…

Na Segunda casa São Paulo já estava mais cinza, menos charmosa e eu mais solteira do que nunca. Aluguei um apê num bairro arborizado. Abarrotei aquele apartamento de livros…Clarice Lispector, Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Neruda e Octavio Paz foram bons companheiros… A casa ficou em tons de azul (sei-lá-porque-motivo) e um quadro hindú no centro da sala. Ganesha, filho de Shiva e Parvati.

Chegou a Terceira casa. São Paulo já não me fazia cócegas. Junto com a Terceira casa (literalmente) chegou o amor da minha vida. A casa ficou apertadinha com o casamento. Mas espaço não foi problema. Tudo ali foi  cenário para o que profissionalmente acontecia fora dela. Curiosamente, encaixotei todos os livros. Fiquei sem a estante. Sei-lá-porque-motivo a casa ficou toda branca e preta. Na parede gravuras de Picasso.

Até que numa caminhada de mãos dadas fomos apresentados ao casarão de 1960.

A Quarta casa veio equilibrar no que São Paulo me falta. Equlibrar o que sobra. Tem jardim. Tom Jobim e Maria Bethania, nossos pássaros que dão bom dia obrigatoriamente as seis da manhã. Pés no chão. A Frida, sabiá  inquilina que nos visita todas as sagradas tardes. Cheiro de bolo com café.

A cozinha tem saudade homenageada nos móveis restaurados da vovó. A sala é dilálogo entre o antigo e o novo. A varanda fica recheada de luz num convite privilegiado para as tardes cúmplices de verão. Rubem Alves na estante.

Foi a primeira vez que fechei olhos e bati meus sapatinhos de rubi: Sair para o mundo e se recolher. Conhecer trilhões de pessoas e ficar só. Falar e depois silenciar.

Ao meu redor estão os livros preferidos. Quadros favoritos. A pessoa favorita - ele. E um jardim a ensinar diariamente que é preciso replantar, mudar de terra.

Sempre acreditei que nossa casa inspira nossa vida. Sempre acreditei que nossa vida inspira nossa casa.  Este Lar doce lar é Zé Rodrix. Um lugar onde eu possa ficar do tamanho da paz. E Nada Mais.

ps: Para quem não se lembra dos sapatinhos de rubi vale reler Frank Baum.


PS2:  Texto da minha nora Raquel; gostei tanto que pedi sua permissão para pulicá-lo aqui. Se ela concordar,  outros estarão se apresentando...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Toda pedra no caminho..."

"Voce deve retirar..."
Dia 1 de Dezembro fui ver o Show do Roberto, talvez a quinta  vez que ele veio na minha cidade, e segunda  que eu compareci. Amei amei! Showzaço! De arrepiar! Quem curte o cara e já o assistiu algum dia, sabe do que estou falando! Essa música é uma das  minhas preferidas...e acordei com ela na cachola, cantarolei várias vezes ..."é pre ci so saber viver...É pre ci so saber viver...É pre ci so saber viver...saber viver...saber viver..."
Penso que como estou de férias da vida, e atolada de corpo e alma no meu neto, e como também A D O R O começo de ano, vou continuar cantando ...está rolando também Chico (CD novo está demais!), Tom, Roberta Sá, Caetano, Mariza Monte (CD novo excelente também)...e claro que não pode faltar  COCORICÓ!!! "Meu querido paiol! Meu querido paiol ol ol ol ol..."
E assim, com fé em Deus e pé na táboa,  vou continuar na escola maravilhosa da vida, aprendendo e aprendendo "...é pre ci so saber viver...SABER VIVER..."

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Inspiração de Ano Novo!

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

Carlos Drummond de Andrade 
 
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Feliz Natal e Bom 2012!

"Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro amanhã, portanto,
hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente,
VIVER!"
                                                            ( Dalai Lama)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Pele que Habito e outros filmes...

Melhor filme de Almodovar, e atuação fantástica do Bandeiras. Filme de tirar o fôlego, surpreendente! Entramos no cinema sem saber nada sobre o filme. Eu e meu genro. O suspense nos pegou desprevinidos, mas assim que é bom, e esse filme, em especial, faz toda diferença não saber nada sobre ele.
Assisti pela segunda vez com o marido, e agora foram os detalhes que me surpreenderam; assisti com outros olhos, já que o suspense era conhecido; prá mim, melhor filme do ano!
Calligaris fala dele na Folha de hoje e quem já assistiu deveria conferir. Uma única frase para registro: "A Pele que Habito é também mais uma parábola do amor, pois é banal que o amor nos leve a querer transformar parceiros e parceiras de forma que eles correspondam a nossas expectativas; o projeto de moldar o outro transforma qualquer convívio numa violência." Resumiu com maestria.
Minhas Tardes com Marguerite: Filme delicioso, tranquilo.
Palhaço: nostálgico, singelo.